Qual a cor da literatura?
Na Tercera Margen, acreditamos que a diferença entre uma tradução humana e uma tradução feita por tradutores automáticos ou por inteligência artificial está no fato de que os seres humanos têm corpo. Antes de se tornarem textos, as palavras circulam por um sistema nervoso, assustam, comovem e atravessam quem as escreve, passando pelo filtro de sua vivência particular. Por isso, nos interessam especialmente as reflexões que tornam essa realidade evidente e revelam a carne de quem traduz. Davi Boaventura nos autorizou a reproduzir este texto, originalmente publicado em sua Dengoletter , a propósito de sua tradução do livro Hevy, de Kiese Laymon, para o português brasileiro. A tradução do texto de Davi para o espanhol é de Ángela Cuartas.
Pois bem, vejam só, quero, pra começo de conversa, lembrar os mui estimados dengoletters de uma verdade muito, muito insidiosa: uma tradução é uma tradução e sempre vai ser uma tradução. Pode parecer uma questão óbvia, mas não se enganem, porque não é: muita gente ― muita gente mesmo ―, mesmo leitores assíduos, às vezes esquecem que, sim, estão lendo uma tradução, e não o texto original, e que, sim, quem escreveu aquelas palavras não foi a autora fulana de tal, foi alguém nos bastidores da coisa, na escuridão das entrelinhas, uma pessoa que às vezes não tem nem o nome na contracapa. É uma tradução e sempre vai ser uma tradução e, por ser uma tradução, embora mantenha certos limites (pois, afinal, não dá pra simplesmente inventar um livro novo), sempre vai ter um grau de subjetividade inevitável. Existem escolhas, direcionamentos, linhas editoriais, pode ser que a linguagem da texto mude a depender do público-alvo, ou de quem está pagando pelo trabalho, ou até da época em que o livro vai ser lançado, e por aí vai.
Não é só meter no Google e achar que vai sair bonitinho do outro lado (muito pelo contrário, aliás, em certos contextos você precisa inclusive fazer o oposto do que manda o dicionário se quiser que o livro faça algum sentido no idioma de chegada).
Mas, bom, este preâmbulo, na verdade, além de tentar situar a história pra quem não é muito da área, é apenas uma desculpa para poder falar de Kiese Laymon, e do Pesado, livro que traduzi para a Dublinense em 2021 e que provocou um terremoto violento na minha cabeça ― e também na minha escrita. Kiese, com seu vocabulário negro, suas gírias negras, seu ritmo negro, seus diálogos negros, seus personagens negros, sua vivência negra, sua dor negra, suas reviravoltas negras, suas influências negras, suas mentiras negras, suas verdades negras, sua escrita negra, me atropelou. E, a cada linha que eu lia e traduzia, uma determinada cena insistia em me aparecer no pensamento.
Era um sábado à tarde em Salvador e eu e meu pai estávamos em uma livraria de shopping, uma daquelas livrarias grandes, das maiores da cidade, e essa livraria estava lotada, completamente cheia. Só que não era de cliente. Sábado era o dia dos bondes em Salvador e os bondes, segundo os seguranças dos shoppings, ao invés de irem lá para conversar, paquerar e dar risada, estavam lá era mesmo pra roubar ― aquele velho preconceito que resume uma rede complexa de censura, silenciamento, negligência e desigualdade social. Não demorou e os seguranças da livraria começaram a se aglomerar e a empurrar e essa galera toda foi colocada para fora, sem direito de defesa. As portas da livraria foram, então, fechadas, em um sábado à tarde, com um brucutu estacionado na frente para liberar quem entrava ou não no lugar.
Eu estava com meu pai na cafeteria, no segundo andar da loja, observando as portas da livraria. Do lado de fora, os bondes continuavam por ali, batendo papo, curtindo o sábado. Do lado de dentro, as pessoas em silêncio, lendo seus livros, tomando seus cafés. Olhei para o lado de fora, vi uma massa de adolescentes, quase todos negros. Olhei para dentro, vi uma massa de adultos e idosos, quase todos brancos. E me enterrei na cadeira, muito, muito triste, pensando que eu nunca tinha visto uma livraria ser esvaziada daquele jeito. Alguns dias depois, voltei para Porto Alegre, onde eu morava na época, obrigado a lidar com uma pós-graduação em escrita criativa & literatura que, por mais acolhedora que fosse, era, também ela, esmagadoramente branca.
Claro, seria muita ingenuidade minha chegar aqui e tentar explicar um tecido social e um produto cultural absurdamente intricado, como são a sociedade brasileira e a literatura, a partir de uma descrição rápida de uma situação isolada. Mas veio Kiese Laymon. E, página a página, me convenci de que, se queremos mesmo furar nossa pequena bolha da literatura, eminentemente de classe média, precisamos escrever nossos textos tendo em mente não somente aqueles brancos (ou os pardos de pele clara que são aceitos como brancos em determinado círculo social), todos sentados com seus livros nas mãos, lendo em silêncio, mas também aqueles jovens negros barulhentos colocados para fora da livraria, com suas cores, suas tranças e suas gírias peculiares.
Foi o que tentei na minha tradução do Pesado, com a ajuda de Samla Borges e Rodrigo Rosp. Coloquei lá uns verbos estranhos, algumas gírias da quebrada, espasmos de baianês, repetições, um uso hiperbólico de pronomes. Algumas pessoas devem ter estranhado, ainda mais se pensarmos em toda nossa história literária com gigantesca influência europeia e norte-americana clássica, mas acho que não poderia ser diferente. Afinal, como o próprio Laymon diz em um dos capítulos mais empolgantes do seu livro de memórias, o lugar onde a abundância negra mais se destaca é na maneira como desmontamos e remontamos as palavras, os sons das palavras e as frases.
Se o objetivo foi alcançado, não sei. Mas que possamos dobrar, quebrar e construir palavras inexistentes no dicionário. Que os jovens negros possam frequentar as livrarias do jeito que eles quiserem, estarrando as convenções e os sentidos únicos. Que os nossos templos literários não sejam somente templos de silêncio e de reza, porque somos todos atravessados de barulhentas culhudas. Que as nossas diferentes linguagens interajam e explodam em uma língua viva, que não aceita pacificamente se submeter à norma culta, essa coisa goguenta que se espalha pelas estantes brasileiras.
É pesado quando se fica bem, diz Kiese Laymon.
Pode ser também um belo espetáculo.