Blog / Ensaio

Quando o sangue das tuas veias é um tumulto de formigas vermelhas

Melibea Garavito Carranza

O ofício de viver (Isto Edições, 2026; tradução de Eduarda Rocha) é o primeiro livro da poeta colombiana María Mercedes Carranza a ser publicado no Brasil. Reproduzimos o prólogo do livro escrito por Melibea Garavito Carranza, filha da autora e organizadora da coletânea, na tradução de Ederson Nunes, editor da Isto.


A solidão e a morte se entrelaçam nestes versos, como as lianas abraçam uma árvore na selva. Por um tempo coabitam, mas finalmente acabam por sufocar seu anfitrião e caem juntas em estrepitosa decadência vegetal. Dessa simbiose surge a lucidez, um olhar carregado de existencialismo com o qual a poeta desnuda sua realidade, a ponto de convertê-la em forma vazia — pessoal e universal ao mesmo tempo —, permitindo que o leitor se encontre consigo mesmo e trave um diálogo íntimo com o espelho.1

María Mercedes Carranza começava a escrever entre o sono e a vigília. Ao anoitecer e ao amanhecer, dava voltas em sua cama sonhando com recordações, desejos, medos, frustrações… Um fio brotava de seu subconsciente e se amontoava à espera de que ela começasse a tecer um poema. Lápis em punho, delineava versos na escrivaninha de seu pai ou na cama. Dezenas de folhas caíam pelo chão, amassadas. Ao final da tarefa, flutuava sobre um mar de versões rejeitadas, com o mapa que a levaria a encontrar a palavra exata. Entregava-o ao seu assistente, que o passava à máquina uma e outra vez. A poeta o recebia, corrigia, mudava esta palavra, aquela outra, retirava versos, riscava, recuperava, combinava, até encontrar aquele cheiro, aquela cor: a recordação intacta. Porque o mais importante para ela era que a palavra fosse veraz, que nomeasse sem adornos nem disfarces. Já em um dos seus primeiros poemas declara, à maneira de um manifesto:

[…] alguém
disse: faça-se
a Palavra, e você se fez
mentirosa, puta, teimosa, é hora
de tirar a maquiagem e
começar a nomear, não o que é
de Deus, nem o que é
de César, mas o que é nosso
a cada dia. Faça-se mortal
a cada passo, deixe as rimas
e os solfejos, gorjeios e
trinados, melindres, manchas e
vernizes, e ouça com atenção
esta canção: os pintinhos dizem
piu-piu-piu quando sentem
fome, quando sentem frio

A busca pela palavra exata exigia um trabalho meticuloso que começava por desnudar o discurso de paisagens celestiais e suntuosidades verbais, para abrir espaço para a vida cotidiana na reflexão poética, que é onde se oculta a recordação em sua forma mais selvagem. Essa maneira de aprofundar-se em sua própria linguagem levou Carranza a adentrar, sem remédio, o labirinto de seu próprio Minotauro. Desnuda de máscaras, embarcou em uma travessia profunda de conhecimento interior, onde cada verso foi um abismo, e por todos lançou-se sem prudências para entrever, por instantes, o sentido cru da existência e abraçar sem proteção a dualidade e a razão de ser desta vida e de sua morte.

 

  1. A busca pela palavra exata exigia um trabalho meticuloso que começava por desnudar o discurso de paisagens celestiais e suntuosidades verbais, para abrir espaço para a vida cotidiana na reflexão poética, que é onde se oculta a recordação em sua forma mais selvagem. Essa maneira de aprofundar-se em sua própria linguagem levou Carranza a adentrar, sem remédio, o labirinto de seu próprio Minotauro. Desnuda de máscaras, embarcou em uma travessia profunda de conhecimento interior, onde cada verso foi um abismo, e por todos lançou-se sem prudências para entrever, por instantes, o sentido cru da existência e abraçar sem proteção a dualidade e a razão de ser desta vida e de sua morte.