Sandra no tiene dedos
Pois bem, vejam só, quero, pra começo de conversa, lembrar os mui estimados dengoletters de uma verdade muito, muito insidiosa: uma tradução é uma tradução e sempre vai ser uma tradução. Pode parecer uma questão óbvia, mas não se enganem, porque não é: muita gente ― muita gente mesmo ―, mesmo leitores assíduos, às vezes esquecem que, sim, estão lendo uma tradução, e não o texto original, e que, sim, quem escreveu aquelas palavras não foi a autora fulana de tal, foi alguém nos bastidores da coisa, na escuridão das entrelinhas, uma pessoa que às vezes não tem nem o nome na contracapa. É uma tradução e sempre vai ser uma tradução e, por ser uma tradução, embora mantenha certos limites (pois, afinal, não dá pra simplesmente inventar um livro novo), sempre vai ter um grau de subjetividade inevitável. Existem escolhas, direcionamentos, linhas editoriais, pode ser que a linguagem da texto mude a depender do público-alvo, ou de quem está pagando pelo trabalho, ou até da época em que o livro vai ser lançado, e por aí vai.
Não é só meter no Google e achar que vai sair bonitinho do outro lado (muito pelo contrário, aliás, em certos contextos você precisa inclusive fazer o oposto do que manda o dicionário se quiser que o livro faça algum sentido no idioma de chegada).
Mas, bom, este preâmbulo, na verdade, além de tentar situar a história pra quem não é muito da área, é apenas uma desculpa para poder falar de Kiese Laymon, e do Pesado, livro que traduzi para a Dublinense em 2021 e que provocou um terremoto violento na minha cabeça ― e também na minha escrita. Kiese, com seu vocabulário negro, suas gírias negras, seu ritmo negro, seus diálogos negros, seus personagens negros, sua vivência negra, sua dor negra, suas reviravoltas negras, suas influências negras, suas mentiras negras, suas verdades negras, sua escrita negra, me atropelou. E, a cada linha que eu lia e traduzia, uma determinada cena insistia em me aparecer no pensamento.
A los doce años Sandra soñaba con ser mecanógrafa, hizo un curso y todo. Enmarcó la fotografía con el certificado en manos y la puso en un lugar destacado del estante. No era la mejor del grupo, pero tampoco estaba entre los peores. En esa época, Sandra tenía dedos.
En un punto de la vida, los perdió. Le quedaron los muñones, feos, la piel estirada, cicatrizada a las malas.
Por supuesto que Sandra extraña las facilidades que proporciona el hecho de tener dedos. Se acuerda, con nostalgia, de la firmeza de los movimientos de pinza, de su hermosa letra cursiva, de la silueta de los dibujos que la motricidad fina le concedía. Y de practicar en el teclado del piano del conservatorio municipal. Sandra a veces llora, pero no se deja abatir. Aprendió a arreglárselas con las manos de raqueta, incorporó el apodo como si fuera, toda ella, una mujer raqueta. Lava la loza, hace compras en el supermercado, maneja, cambia los canales de televisión. Consiguió trabajo como operadora de montacargas. Maneja ese armatoste sin mayores dificultades, las garras del montacargas obedecen a sus comandos, con un poco de buena voluntad se pueden ver dos dedos largos que equilibran palés con las más diversas mercancias. Le gusta el ambiente de trabajo, le gustan los colegas, el jefe es generoso, pero es probable que la condescendencia excesiva esconda algo, una especie de curiosidad o culpa.