Sandra não tem dedos
Aos doze anos Sandra sonhava em ser datilógrafa, fez curso e tudo. Emoldurou a fotografia com o certificado na mão, colocou-a num lugar de destaque na estante. Não era a melhor da turma, mas não estava entre os piores. Na época, Sandra tinha dedos.
A certa altura da vida, perdeu-os. Restaram os cotocos, feios, a pele repuxada, cicatrizada às pressas.
É claro que Sandra sente falta das facilidades que os dedos proporcionam. Lembra, com saudade, da firmeza de seus movimentos de pinça, da belíssima letra cursiva, dos contornos de desenhos que a motricidade fina lhe concedia. E de exercitar-se nas teclas do piano do conservatório municipal. Sandra às vezes chora, mas não se deixa abater. Aprendeu a se virar com as mãos de raquete, incorporou o apelido como se fosse, de corpo inteiro, uma mulher raquete. Lava a louça, faz compras no supermercado, dirige, troca os canais da tevê. Conseguiu emprego de operadora de empilhadeira. Conduz aquele trambolho sem maiores dificuldades, as garras da empilhadeira obedecem aos seus comandos, com um pouco de boa vontade podem-se enxergar dois dedos longos que equilibram pallets com as mais diversas mercadorias. Gosta do ambiente de trabalho, dos colegas, o chefe é generoso, mas é provável que a condescendência em excesso tenha algo por trás, uma curiosidade ou culpa.
A certa altura da vida, perdeu-os. Restaram os cotocos, feios, a pele repuxada, cicatrizada às pressas.